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Cinema / TV

Vídeo que circula pela web mostra a reportagem de um brasileiro que afirma ter inventado o um equipamento que faz o carro funcionar com água! Será que isso é verdade?

A reportagem, produzida pela equipe de jornalismo da TV Tribuna, foi publicada no começo de março de 2015 no YouTube e quase que imediatamente se tornou viral no Facebook, alcançando centenas de milhares de compartilhamentos.

Na matéria, os jornalistas mostram a história de um inventor capixaba que, após instalar um equipamento no motor do seu automóvel, afirma que seu carro agora faz 1000 quilômetros com apenas um litro água!

Capixaba teria inventado o carro movido a água! Será verdade? (foto: Reprodução/Facebook)

Capixaba teria inventado o carro movido a água! Será verdade? (foto: Reprodução/Facebook)

O tal invento, segundo o rapaz, transforma as moléculas de água em hidrogênio através de um processo chamado eletrólise e esse elemento químico é que serve de combustível para o veículo.

Será que isso é verdade? Assista à reportagem abaixo e veja o que descobrimos a respeito:

 

Verdadeiro ou falso?

O que podemos verificar na matéria acima é um exemplo de mau jornalismo! Uma reportagem que não fornece dados técnicos ou demais detalhes e/ou a opinião de entendidos no assunto dá margem a muita especulação e, é claro, deixa os mais céticos de orelha em pé.

  • O que tem dentro da “caixinha” mostrada na reportagem?
  • Isso é mesmo um invento desse rapaz que aparece no vídeo?
  • É possível separar o hidrogênio da água através da eletrólise?
  • Se o invento transforma água em hidrogênio, por que ainda sai água do escapamento?
  • Essa água que sai do escapamento poderia ser usada novamente pelo motor? (Dessa forma, o carro nunca mais precisaria ser reabastecido!)

Essas dúvidas não foram respondidas nessa reportagem e, igualmente, não foram respondidas nas outras matérias que foram feitas posteriormente com o mesmo inventor.

Como não tivemos acesso ao trabalho do inventor (e quem afirma é quem tem que provar), vamos tentar explicar algumas coisas:

Em primeiro lugar, o invento de um motor que “gera” hidrogênio retirado-o da água para transforma-lo em combustível já é antigo e patentes já foram registradas em 1978, em nome do norte-americano Yull Brown. Chamado de “Gás Brown”, a suposta mistura hidrogênio-oxigênio “inventada” por ele foi contestada por vários cientistas e provou ser uma fraude em um artigo de 2008 da revista especializada PopularMechanics. Na verdade, o motor de Brown funcionava com combustível normal e água e, segundo afirmava-se, servia para reduzir o consumo da gasolina. A alegada economia de combustível vinha, na realidade, de regulagens feitas nos carburadores dos veículos onde os equipamento eram instalados.

O motor a água também já foi patenteado por outros inventores ao longo da história e um dos mais famosos foi o ex-motorista de ônibus chinês Wang Hongcheng. Em 1983, aproveitando-se do crescimento e da proliferação das pseudociências e das superstições na China, Hongcheng conseguiu investimentos do Governo e de outros apoiadores o equivalente a mais de 30 milhões de dólares para o financiamento de seu invento: Um liquido capaz de transformar água em combustível! Pra encurtar um pouco a história, acabaram descobrindo que o inventor era um charlatão e ele amargou 10 anos de cadeia. A empresa milionária fundada por ele nunca chegou a produzir nenhum ml desse liquido milagroso…

Outros “inventores” também alegam ter conseguido criar o tão sonhado carro movido a água, como o norte-americano Denny Klein, que disse ter inventado um carro – em 2010 – que percorria 160 Km com 1 litro de água! Claro que seu invento, o Aquygen, nunca saiu do papel, conforme apurado aqui!

Então, voltando ao carro a água brasileiro, mesmo que o rapaz tenha inventado algo nesse sentido, é bem capaz que ele não consiga registra-lo, tendo em vista que outros inventores foram mais espertos do que o capixaba.

Por outro lado, a eletrólise da água é um processo conhecido pela humanidade há mais de dois séculos. Basta passar uma corrente elétrica através de um par de eletrodos (que estão em um recipiente com água) e “como por mágica” bolhas de oxigênio se formarão em um eletrodo e, no outro, hidrogênio. O problema de se criar um motor que aproveite esse hidrogênio gerado por eletrólise é que, infelizmente, ainda se gasta muito mais energia para se separar os átomos de hidrogênio do que a energia que ele poderá gerar.

Na edição do dia 10 de março de 2015, o jornal A Tribuna explica que Roberto Souza é um capixaba dono de uma empresa de informática e que a sua invenção (que, na verdade, é uma adaptação de outras já existentes) se baseia na eletrólise, mas não acrescenta muito à notícia! Igualmente, a matéria não explica de onde vem a energia usada na eletrólise!

Conforme é explicado nesse artigo publicado no site AutoBlog, apesar dos avanços nos estudos a respeito da “geração” de hidrogênio, o processo ainda é cerca de 70% eficaz na melhor das hipóteses. Ou seja, de toda a energia gasta para se criar o hidrogênio, quase um terço se perde no processo. Nas contas feitas pelo AutoBlog, dos 24 kWh de energia vindos do motor, somente 14 kWh seria devolvido de volta. Dessa forma, em poucos quilômetros o veículo deixaria de funcionar…

Esse é o mesmo problema enfrentado por aqueles que sonham em criar o moto perpétuo, um tipo de maquina que não gastaria energia e funcionasse sem parar. Como já explicamos aqui no E-farsas, é impossível gerar energia do nada!

Kit de hidrogênio

Quando a reportagem do brasileiro “inventor do carro a água” começou a fazer sucesso na web, vários leitores do E-farsas entraram em contato, nos questionando a respeito de kits de hidrogênio que estão sendo vendidos online. O produto seria um conjunto de componentes que realizariam a eletrólise da água (igual ao aparelho que foi supostamente inventado pelo homem da reportagem) e que o hidrogênio resultante ajudaria a diminuir o consumo de gasolina do automóvel.

O que podemos afirmar é que vários testes já foram feitos com esse tipo de produto e a sua eficácia beira ao zero por cento! Em janeiro de 2014, por exemplo, a revista automotiva Quatro Rodas testou o mais popular desses kits que estão à venda por aí e concluiu que o aparelho (vendido a Rmil) não diminuiu em nada o consumo de combustível.

Comprar esse tipo de kit é jogar dinheiro fora!

"Kit de hidrogênio" não cumpre o que promete! (foto: reprodução/Quatro Rodas)

“Kit de hidrogênio” não cumpre o que promete! (foto: reprodução/Quatro Rodas)

Entre em contato com o E-farsas via WhatsApp: (11) 96075-5663

Alternativas pouco viáveis

Em 2014, a montadora de veículos Toyota anunciou que lançará o primeiro veículo movido a hidrogênio no ano seguinte. A diferença do Mirai (nome do veículo, que – segundo o Portal Exame, significa “futuro” em japonês) para esses veículos que (não) funcionam a partir da eletrólise é que o carro da Toyota vem com tanques que armazenam o hidrogênio já pronto para ser usado. Aliás, o tanque de combustível é um dos equipamentos que mais preocuparam os engenheiros da montadora japonesa:

Tanques de hidrogênio do Mirai suportam grande pressão! (foto: Reprodução/Wikipédia)

Tanques de hidrogênio do Mirai suportam grande pressão! (foto: Reprodução/Wikipédia) 

O Portal Exame explica que o carro é, na verdade, elétrico:

“O Mirai possui uma célula de combustível onde o hidrogênio se combina com o oxigênio do ar, produzindo água e eletricidade. É como uma bateria. Mas, em vez de recarregá-la com eletricidade, coloca-se mais hidrogênio para que a reação química possa continuar.”

Vamos deixar de lado a explicação de como o hidrogênio será transformado em energia (não é explicado como essas “células de combustível” irão funcionar), e nos ater ao fato de que a montadora ainda terá outro desafio pela frente: Para garantir que o projeto do Mirai dê certo, a Toyota terá que investir em postos de combustível onde o hidrogênio deverá ser vendido. A que preço? Não se sabe, mas o hidrogênio não deve ser mais barato que da gasolina…

Em 2006, uma equipe de engenheiros mecânicos da Universidade de Minnesota (EUA) descobriu que a água reage com um elemento químico chamado boro, quebrando suas moléculas e liberando hidrogênio puro a partir da água mineral. O problema é que o boro se desgasta muito rápido! Para se ter uma ideia, na produção de hidrogênio, cada 45 litros de água consome 18 quilos do minério. Inviável, até agora… 

Atualização 12/03/2015

Rafael Souza, amigo leitor do E-farsas, no ajudou a complementar esse artigo, fazendo rápida pesquisa na web a respeito da empresa do inventor do “revolucionário” aparelho conversor de hidrogênio!

Buscando pelo proprietário do domínio Smartek.com.br (empresa citada na segunda reportagem feita pela TV Tribuna), nosso amigo verificou que o endereço eletrônico está registrado em nome de José Roberto de Souza Filho. Ou seja, o site está realmente em nome do inventor!

smartek_whois

O Google nos ajudou também a conseguir o CNPJ da referida empresa e com esse registro, nosso leitor fez o que os produtores da TV Tribuna deveriam ter feito: Verificado se o endereço da empresa existe ou não!

smartek

De fato, a empresa tem sede em Vitória (ES), mas o endereço registrado na Receita Federal é de um prédio residencial com algumas salas comerciais no térreo, indicando que o dono da Smartek provavelmente usou o seu endereço residencial, ou de algum amigo ou parente.

Além disso, o espaço comercial no térreo não possibilita espaço físico para desenvolver as atividades descritas no documento registrado no site da Receita Federal, como podemos ver nessa imagem do Google Street View:

smartek_street

Será que a empresa não está mais funcionando? Pode ser que as fotos do Google estejam desatualizadas e a empresa ainda não havia se instalado naquele local (apesar de afirmar isso em seu documento junto à Receita Federal).

LEMBRANDO QUE OS DADOS MOSTRADOS AQUI SÃO PÚBLICOS E PODEM SER CONSULTADOS POR QUALQUER UM!

O jeito encontrado foi recorrermos à Junta Comercial de Vitória, no Espírito Santo. No site da instituição descobrimos que a situação da Smartek está como “FALIDA”!

smartek_junta

Mesmo estando falida na Junta Comercial capixaba, a Smartek continua recebendo encomendas do seu aparelho que supostamente transforma água em combustível automotor. Ao enviarmos um e-mail para a empresa, recebemos uma mensagem automática avisando que o aparelho custará em algo em torno de R.300,00 e estará à venda a partir de julho:

smartek_email

Resumindo, fizemos essa importante atualização no artigo para que você não dê o seu dinheiro para qualquer um sem, antes, pesquisar um pouco mais sobre a empresa que te promete algum produto ou serviço!

Agradecimentos ao leitor Rafael Souza, que nos ajudou muito através da nossa fanpage no Facebook!

Mais sobre carros movidos a água (que não funcionam):

Conclusão

Não acredite em tudo o que você vê na televisão ou lê na internet! Esperamos que os jornalistas da TV Tribuna desfaçam esse “mal-entendido” e produzam outra matéria em breve, esclarecendo que a notícia do carro movido a água enganou a todos (até à equipe de reportagem). Ah! Sobre a questão das teorias conspiratórias afirmando que todo mundo que inventa carro movido a água é morto pela máfia dos magnatas do petróleo, falaremos em breve!

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